Pare um instante e leia esse relato sobre a depressão – ESCLARECEDOR

Esses dias, pesquisando um assunto para o blog, dei de cara com o texto “Trintei Na Depressão”, reproduzido no site da Folha de São Paulo

Terminei de ler e só pensei: tenho que compartilhar.

Logo descobri que aquele relato tão honesto e esclarecedor havia sido escrito pela Tati Oshiro, uma brasileira na faixa dos 30 anos morando em Toronto, no Canadá.

Imediatamente mandei um e-mail para ela pedindo autorização para publicar o texto no blog. A resposta veio a jato: “Claro que pode!”. 

E aí o que a blogueira (rs rs rs) faz? Agradece a Tati, escreve um artigo-textão e torce para você ler até o final!

Além de mostrar o relato pessoal dela, quero te explicar por que a depressão é um dos assuntos do blog e por que ainda pretendo falar muito sobre isso. 

#Agorachegadeconversa 

Trintei na Depressão, por Tati Oshiro 

Fui diagnosticada na época em que meus amigos estavam dando grandes passos em suas vidas e seguindo em frente. De certa forma, eu sei que fiquei pra trás. Às vezes eu me sinto meio esquecida, sabe? Na verdade, às vezes, eu mesma me esqueço.

Assim que eu fui diagnosticada, muitos dos meus amigos estavam comprando apartamentos, noivando, casando. Enquanto eu era hospitalizada (as primeiras vezes), eles estavam tendo seus primeiros filhos. Carreiras iam em frente, mais bebês nasciam e eu sofria com as recaídas.

Centenas de milhões de pessoas no mundo enfrentam problemas de saúde mental. Mesmo assim o sentimento é que estamos vivendo esse desafio sozinhos. Isso porque a maioria das pessoas não consegue falar sobre o assunto. Existe um tabu! E isso não é culpa delas. Nem sua. Nem minha.

No Brasil,  o número de suicídios por motivos ligados a depressão cresceu mais de sete vezes nos últimos 16 anos –e ainda pouco se fala abertamente a respeito. É triste dizer, mas acho que, de certa forma, nós –doentes– já estamos acostumados.

Responda: qual das opções é a mais bem-aceita quando você vai ligar para o seu chefe de manhã e avisar que precisa faltar no trabalho?

1) “Chefe, preciso ficar em casa hoje porque não estou bem disposto, estou com dor de cabeça e enjoo. Acho que é virose!”

2) “Chefe, não vou para o escritório hoje porque estou me sentindo muito triste, angustiado e não consigo me levantar da cama. Acho que é depressão!”

Todos sabemos a resposta. O mundo consegue aceitar e se sensibilizar quando qualquer outra parte do seu corpo adoece, menos o cérebro.

Há um grande preconceito, uma imagem distorcida das pessoas que lutam contra depressão, ansiedade, bipolaridade, ataque de pânico, TOC…

Sendo sincera, para mim não é fácil falar sobre isso. É foda! E parece que é foda para todo mundo. Tanto que ninguém, no fim das contas, está falando nada.

Nós não vemos isso nas mídias sociais, não vemos na TV. Esse assunto não é gostoso, não é divertido, não é leve. E como não lidamos com o tema, não percebemos a severidade da depressão.

E é sério: a cada 30 segundos, em algum lugar do mundo, alguém tira a própria vida por motivos ligados à doença. E pode ser alguém a dois quarteirões de distância, a dois países ou continentes de distância, mas está acontecendo.

As pessoas precisam saber que depressão não é simplesmente estar triste quando algo não anda bem na vida. Quando você termina com seu namorado, quando você perde uma pessoa amada, ou quando não consegue aquele emprego que tanto queria, isso é tristeza –uma emoção natural.

A depressão real é estar triste mesmo quando tudo na sua vida vai bem.

Por muito tempo, eu acho, eu vivi duas vidas completamente diferentes e uma sentia medo da outra. Eu tinha medo de que as pessoas pudessem me ver como eu realmente era. Por baixo da minha risada, havia sofrimento. Eu escondia muita dor.

Algumas pessoas sentem medo de levar um fora, outras tem medo de tubarões, outras ainda tem medo da morte. Para mim, por muito tempo nessa vida, eu tive medo de mim mesma. Eu tive medo da minha vulnerabilidade, das minhas fraquezas. E esse medo me fazia sentir como se eu estivesse encurralada em um canto, sem outra saída a não ser a morte. Eu penso nisso todos os dias.

Enquanto eu escrevo aqui, eu já pensei novamente, porque essa é a doença, esse é o sofrimento, isso é a depressão. Não é como catapora –uma vez vencida, a doença não se vai para sempre, é uma coisa com a qual se vive, como uma vizinha chata que nunca vai mudar de casa, uma voz que você vai sempre ter que escutar.

E a parte mais assustadora é que, depois de um tempo, você se acostuma, as coisas se tornam “normais”. E aquilo de que você mais sente medo não é a dor lá de dentro, é o preconceito das outras pessoas. É a vergonha, o olhar de desaprovação na cara do amigo, o cochicho nos corredores dizendo que você é fraca e os comentários de que você está louco.

E isso é o que impede de procurar ajuda, fazendo com que você guarde essa dor. E aí você guarda e esconde, mesmo sabendo que é justamente isso está mantendo você na cama todos os dias e fazendo você se sentir vazio, não importa o quanto você se esforce.

Vivemos em um mundo onde,  quando alguém quebra um braço, todo mundo corre para assinar no gesso. Mas a pessoa tem depressão, todo mundo foge.

A depressão é um dos maiores problemas de saúde já documentados e é um dos menos discutidos. O assunto fica de lado, afastado –as pessoas esperem que as coisas se consertem sozinhas.

Mas isso não aconteceu e não vai acontecer. Cultivar essa “esperança” não resolve, só procrastina. 

Não sei qual é a solução, mas o primeiro passo é reconhecer que temos um problema –não vai ser possível encontrar  a resposta enquanto temos medo da pergunta.

Essa mudança de postura tem que começar agora –comigo, com você, leitor, e com outras pessoas que estão sofrendo, que estão escondidas nas sombras. Nós precisamos quebrar o silêncio e falar a respeito.

Se você está enfrentando a depressão, saiba que está tudo bem. Saiba que você só está doente, você não é fraco. A depressão é um problema, não uma identidade.

Mas por mais que eu odeie a depressão, eu sou grata a ela. A doença me empurrou para escuridão para me lembrar que há luz. Minha dor me forçou a ter fé em mim mesma, em outras pessoas, e de que eu posso melhorar e mudar essa situação. Sei que podemos falar sobre isso e lutar contra a ignorância, contra a intolerância, e que podemos aprender a amar quem nós somos –e não quem o mundo quer que sejamos.

Precisamos parar com a ignorância, com a intolerância, com o estigma, com o silêncio, e nos livrar dos tabus.

É preciso dar uma boa olhada para essa realidade e começar a falar, porque a melhor forma de combater esse problema, que as pessoas estão enfrentando sozinhas, é nos fortalecermos juntos.

Apesar dos lugares aonde as estradas me levaram, os 30 anos me trouxeram esperança, desejos e sonhos. O passado não precisa definir o futuro, certo? Eu não terminei ainda, eu não parei. E eu não vou desistir.

Depressão: por que esse assunto no blog? 

A proposta do blog é te ajudar a viver com mais leveza, mesmo com os desafios da vida pós-moderna. 

Acredito que o cuidado com a saúde mental é um ponto importante para isso. Acho que precisamos cuidar da nossa mente da mesma forma que cuidamos da nossa saúde física. 

Isso passa pelo conhecimento e pela discussão sobre os transtornos mentais, crescentes no Brasil e em todo o mundo. Um deles é a depressão. 

Tenho certeza que você conhece alguém que tenha sido diagnosticado com a doença. Talvez um amigo ou parente bem próximo, como é o meu caso. 

E aí você não sabe como lidar, como ajudar, como falar sobre isso. Sinto que poucas pessoas falam abertamente sobre depressão com os familiares, amigos ou colegas de trabalho.

E dá pra entender. Estamos falando de uma doença ainda cercada por tabus e preconceitos. Um transtorno ainda subestimado e incompreendido. 

Mas precisamos falar sobre isso 

Acho que a gente precisa falar sobre depressão. Falar em casa, no bar, no trabalho…

E falar mesmo que nunca tenha passado por isso ou não conheça sequer uma alma viva que enfrente a doença. 

É que ninguém está livre da depressão. Pode acontecer com qualquer um de nós, mesmo que a vida esteja ótima.

Pode acontecer com um amigo querido ou um colega de trabalho que você nem imagina. Tanta gente sofrendo calado…

Pode acontecer com aquele seu conhecido que nem sabe direito que transtorno é esse. Acha que é só tristeza e passa. 

Pode acontecer com sua mãe ou seu pai que logo logo vão entrar na terceira idade.

E está acontecendo muito! Cada vez mais…

Então precisamos falar sobre isso. Precisamos nos informar também. 

Entendendo a doença e os estigmas por trás dela, será que a gente não consegue ajudar de fato alguém deprimido (a)? 

Quem sabe não conseguimos esclarecer as coisas para as pessoas que ainda veem a depressão como sinônimo de fraqueza, frescura, corpo mole

OMS já chamou a atenção para o problema 

Em abril deste ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) promoveu a campanha de conscientização “Depression: Let’s Talk” ou “Depressão: Vamos Conversar”, em português.

Com essa iniciativa, lançada no Dia Mundial da Saúde (7/4), a OMS quis incentivar as pessoas a falarem abertamente sobre a depressão, como o primeiro passo e mais importante passo para reduzir o estigma associado à ela.

Assista ao vídeo:

Estatísticas: outro sinal de alerta

Meses antes da veiculação da campanha, a Organização Mundial de Saúde divulgou um relatório global com as estimativas mais atualizadas sobre a depressão e outros transtornos mentais, como os de ansiedade. 

Na época da divulgação, a diretora geral da OMS, Margaret Chan, alertou:

Estes novos números são um sinal de alerta para que todos os países repensem sua visão da saúde mental e a tratem com a urgência que ela merece. 

No infográfico abaixo listo as estatísticas do relatório que mais me chamaram a atenção. Para acessar o documento completo, clique aqui. 

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3 Comentários


  1. Concordo muito, realmente as pessoas precisam falar mais e precisam deixar o preconceito de lado. Quanta gente nós ouvimos por aí falando em fraqueza, moleza, etc, né? Que coisa! Legal você falar disso aqui!


  2. Nossa o depoimento é o mais sincero que já, li e esclarecedor. Sofro há 26 anos, é a sensação é que minha vida foi perdida, não fiz nada, não consegui nada. Não tenho coragem de postar toda minha dor, no momento só busco uma forma de acabar com essa vida que nada realiza, é um encosto, um problema, pra minha família, que hoje nem se importa mais. Preciso de ajuda sim mas pra por fim nesse pesadelo. Já que não tem cura.


    1. Gislene, achei exatamente isso…sincero e esclarecedor! O melhor depoimento que já li sobre a depressão.
      E quero te dizer que estou aqui pra ouvir a sua dor. Você tem esse espaço para conversar e colocar pra fora todo o seu sofrimento, tudo o que você está sentindo.
      E também quero te agradecer pelo seu comentário. Outras pessoas poderão ler e se sentirem à vontade para falar sobre o que estão sentindo.
      Agradeço também por ter lido o artigo e o relato. Ambos passam a mensagem: NÃO DESISTIR.
      Um abraço

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