Terapia de casal: como funciona? Entrevista com a minha terapeuta!

Alexandra Paiva, especialista em terapia de casal

Quando estou na sala de espera da minha terapeuta e vejo algum casal saindo da consulta, olho e penso: “tomara que dê certo”.

Mesmo sem conhecer aqueles dois, fico torcendo para que eles se entendam. Acho legal vê-los ali na terapia, juntos, procurando o caminho do diálogo.

Legal ver que eles tomaram a atitude de procurar alguém que possa ajudar a clarear as coisas, a melhorar a comunicação, a encontrar uma saída.  

Ao mesmo tempo, me bate a curiosidade: como será que funciona a terapia de casal? Só os casados procuram? Quanto tempo dura? Por fim a maioria se separa?  

Foi com essas dúvidas que eu cheguei para entrevistar ela, minha terapeuta, a mais maravilhosa, aquela que ilumina minha cabeça há quase 10 anos, Alexandra Paiva!!! Ela é especialista em terapia de casal há oito anos e me explicou tudo sobre essa modalidade.

No fim da conversa conclui que o pouco que eu sabia sobre o assunto não passava de senso comum. Talvez você tenha a mesma sensação ao ler a entrevista. Me conte depois!

Quem normalmente procura a terapia de casal?

Alexandra: Normalmente é quem está numa relação que passa por uma grave crise que levou pelo menos um dos parceiros a pensar na separação.

Geralmente quem está sofrendo mais com a situação busca a terapia, vista como a última alternativa, o último recurso para salvar o relacionamento

E aí a pessoa liga…

Alexandra: Sim. Neste primeiro contato, por telefone, normalmente a pessoa quer entender melhor como funciona a terapia de casal. Explico tudo e peço que ela me conte suas motivações para buscar ajuda profissional. 

Nesse momento também peço para que a outra parte do casal entre em contato para confirmar se tem interesse na terapia. Assim já estabeleço, com os dois, um canal de comunicação.

Se o parceiro estiver resistente, tento conscientizá-lo do meu papel, que é facilitar o processo de diálogo entre o casal, para que resolvam seus conflitos. Não tenho a função de julgar, tomar partido ou opinar sobre questões conjugais. 

Como é a primeira sessão?

Alexandra: Na primeira sessão conversamos sobre os problemas mais urgentes que o casal espera resolver.

Também procuro saber quais são os contratos implícitos e explícitos daquele relacionamento, ou seja, quais regras e acordos foram firmados mutuamente pelo casal e quais ficaram apenas presumidos.

Não me importa, por exemplo, se o casal está em uma relação aberta e ambos se envolvem com outras pessoas. Não me cabe o julgamento. O que me interessa é saber o que foi ou não acordado explicitamente entre eles e investigar a origem dos problemas. 

Quais problemas levam os casais à terapia?

Alexandra: Cada casal tem suas particularidades, então é difícil citar um problema específico. 

O que posso dizer é que, de forma geral, a infidelidade é uma das questões que mais aparecem.

Problemas financeiros também são comuns, pelo fato de hoje as mulheres dividirem o sustento da casa com os homens. Alguns ainda enfrentam dificuldades para lidar com isso, aí surgem as divergências.

Muitos casais também chegam ao consultório com a relação desgastada, por conta da interferência dos familiares na vida conjugal. O problema surge da dificuldade em impor limites no pai, na mãe e em outros integrantes da família que “entram” demais no relacionamento

Só quem é casado procura a terapia de casal?  

 Alexandra: Não. A terapia de casal não é procurada só pelos casais que vêm arrastando há anos uma crise no casamento.

Atendo, por exemplo, namorados que têm poucos anos de relacionamento e querem “acertar os ponteiros” antes de partir para uma próxima etapa, como noivado ou casamento.  

Também atendo recém-casados que idealizaram o casamento e estão enfrentando problemas para se adaptar à vida a dois. E também casais que se afastaram um do outro com a chegada do primeiro filho e querem aprender a lidar melhor com as mudanças.

Os homens têm resistência em tomar a iniciativa? 

Alexandra: Pela minha experiência, percebo que os homens estão cada vez mais abertos para a terapia em geral. 

Quando comecei a atender casais, as mulheres tomavam a iniciativa de me procurar em 90% dos casos. Mas isso está mudando e hoje os homens também me procuram.

Sinto que eles estão cada vez mais interessados em trazer à tona suas questões emocionais e discutir a relação. Isso é muito positivo. 

Alguns até se sentem meio desconfortáveis no início, mas logo passa. 

Por quanto tempo os casais devem frequentar as sessões? 

Alexandra: Depende de cada caso. Não há um tempo de duração mínimo, nem máximo para a terapia de casal. Isso vai depender em que nível está o problema, do quanto o casal está aberto para a mudança e da capacidade de cada um mudar.

O mesmo vale para a frequência das sessões. Pode ser semanal, quinzenal ou mensal; contando que haja regularidade. Via de regra, começamos com sessões semanais e aumentamos o intervalo ao longo do percurso. 

Quem faz terapia de casal acaba se separando?

Alexandra:  Algumas pessoas acham que o psicólogo tem a função de unir ou separar os casais. Não tem. Isso quem decide é o próprio casal.

O terapeuta tem o papel de ser um facilitador e criar as ferramentas necessárias para que eles possam resolver suas questões e tomar decisões. 

Muitos encontram razões para ficarem juntos e melhoram a relação consideravelmente. Já os que optam pela separação, após a terapia, têm muito mais chances de conduzirem esse processo de forma respeitosa e harmoniosa. 

A terapia de casal está mais difundida no Brasil? 

Alexandra: Está sim. Para se ter uma ideia, 80% dos meus pacientes faziam terapia individual quando comecei o atendimento no consultório. Só 20% procuravam a de casal.

Hoje, porém, os casais respondem pela maior parte – 60%. Isso demonstra que as pessoas estão deixando de lado os preconceitos e tabus que envolvem a terapia, especialmente a de casal. 

Penso, também, que as mudanças nas dinâmicas sociais são outro grande impulso para a modalidade se popularizar. A cada dia a mulher ganha mais liberdade para se expressar, se posicionando muito mais no relacionamento.

Além disso, o ditado “homem não chora” já está ultrapassado. Hoje é possível enxergar mais sensibilidade e ver homens mais presentes na criação dos filhos e na divisão das tarefas domésticas.  Tudo isso gera maior proximidade, diálogo e possibilidades.  

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3 Comentários


  1. Ótimo conteúdo. Para além do senso comum com informação e fonte de qualidade. Adorei!


  2. Matéria de excelente qualidade e esclarecimento!

    Conheço a profissional há alguns anos e possui total domínio sobre o assunto, além do profissionalismo e ética!

    Parabéns Alexandra Paiva! Sucesso!


  3. Alexandra, parabéns pela entrevista, pela profissional e pela capacidade de atualizaçāo e sensibilidade em sentir o óbvio e perceber o implícito.

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