Banho de floresta: como funciona a prática japonesa contra o estresse e ansiedade

E não é que hoje foi um dia cheio de datas comemorativas? Dia de São Francisco de Assis, Dia dos Animais e Dia da Natureza, de acordo com o Google. Segundo o Twitter, também é #DiaMundialRDB14Años, em comemoração aos 14 anos do grupo Rebelde. kkkkkkkk

Mas a data que escolhi como gancho é o Dia da Natureza. Neste post o assunto é uma prática tradicional no Japão contra o estresse e ansiedade. É o banho de floresta, já ouviu falar? 

Se ainda não, eu vou te contar agora como funciona essa tradição japonesa que está ganhando cada vez mais adeptos no Ocidente. Na Califórnia (EUA), por exemplo, não para de crescer o número de instituições e guias especializados no banho de floresta. Vem conhecer! 

Para começar, o que é o banho de floresta? 

É uma prática ancestral conhecida pelos japoneses como shinrin-yoku. O conceito, também chamado “terapia da floresta”, foi desenvolvido no Japão durante a década de 1980. 

Mas afinal, do que estamos falando? Bom, o banho de floresta nada mais é do que uma imersão na natureza. Falando assim, talvez você esteja pensando que se trata de acampar no meio do mato ou fazer trilha na Floresta Amazônica.

Não, você não precisa sair da sua cidade para desfrutar do banho de floresta. Há outras possibilidades mais fáceis de se encaixar na rotina. Exemplo? Uma bela caminhada pelo parque  no fim de semana. Mas, calma, não basta sair de casa e dar uma voltinha pelas áreas verdes.

A ideia é passar um tempo – mesmo que seja duas horas – conectado(a) à natureza, através dos nossos cinco sentidos (visão, olfato, paladar, audição e tato). Apreciar a paisagem, olhar para o céu, respirar o ar puro, ouvir os sons dos pássaros, tocar as plantas, sentir os aromas e até abraçar as árvores; tudo isso faz parte da experiência.

Também vale fazer uma caminhada, ler um livro, meditar ou curtir um piquenique gostoso. Mas tem uma coisa: a recomendação é que você esteja sozinho (a), sem o celular por perto, sem fazer esforço físico e longe do barulho do trânsito. 

Para muita gente a proposta pode parecer “romântica” demais à primeira vista, mas o fato é que o banho de floresta faz parte das políticas públicas de saúde no Japão desde 1982. Por lá, a prática é realmente levada à sério.  

Banho de floresta na medicina preventiva

No Japão, o banho de floresta faz parte da medicina preventiva japonesa. Isso significa que os serviços públicos de saúde recomendam e incentivam a prática. Para os médicos, ela ajuda a  prevenir o estresse e doenças relacionadas ao nosso estilo de vida, entre elas a ansiedade e depressão.

Para se ter uma ideia, as florestas no Japão ganham uma espécie de selo de certificação para o banho de floresta. Para isso, os locais precisam oferecer estrutura e segurança para receber os visitantes e atender a alguns critérios. Exemplos:  

  •  árvores com altura mínima de 5 metros e largura superior a 20 metros;
  • Riacho, cascata ou lago;
  • longe do barulho do trânsito;
  • boa luminosidade;
  • pelo menos 5 quilômetros de comprimento;
  • guias, terapeutas ou guardas florestais;
  • trilhos bem definidos e conservados. 

Os estudos científicos 

Nas últimas décadas, o governo japonês investiu fortemente em medicina preventiva e também em estudos sobre a relação entre o contato mais próximo com a natureza e a saúde física e mental. Em consequência, já foram publicados vários e vários artigos científicos sustentando os benefícios do banho de floresta. 

Um dos principais, publicado em 2009, defende que o ambiente de floresta promove:

Para chegar a essas conclusões, uma série de experimentos de campo foram realizados por pesquisadores da Universidade de Chiba, um dos principais centros de investigação sobre o banho de floresta no Japão. 

Quem ficou à frente desse trabalho foi o professor Yoshifumi Miyazaki, referência no assunto e autor deste livro aqui. Nesta entrevista, em português, ele fala um pouquinho sobre os estudos. 

Outros benefícios 

Além do professor professor Yoshifumi Miyazaki, outros pesquisadores no Japão vem estudando o banho de floresta nas últimas décadas. Um deles é Qing Li, um dos maiores especialistas em medicina florestal e pesquisador da Nippon Medical School, uma das mais respeitadas universidades de Tóquio.

Qing Li também é desse livro, que ensina como praticar o banho de floresta dentro e fora de casa (sim! dentro também). Nesta entrevista aqui, ele listou os 5 principais efeitos psicológicos e fisiológicos da práticaSão eles:

  • sugere um efeito preventivo contra bactérias, vírus e tumores;
  • apresenta efeitos relaxantes;
  • pode reduzir a pressão arterial, o ritmo cardíaco e o estresse;
  • pode reduzir sintomas de ansiedade, depressão, irritação, fadiga e confusão;
  • pode aumentar o nível de adiponectina, uma hormona que, em baixa concentração, está relacionada com doenças como a obesidade ou diabetes tipo 2. 

O pesquisador acredita que os principais responsáveis pelos efeitos são os fitocidas, óleos essenciais liberados pelas árvores e plantas para combater micro-organismos nocivos. Essas substâncias se difundem pelo ar e são absorvidas por nós, seres humanos. 

Estudos contrapõem os resultados 

Além dos japoneses, pesquisadores de outros países vem estudando o banho de floresta. Um dos estudos recentes, realizado na Coréia e publicado em 2011, concluiu que não há ligação entre os níveis de pressão arterial ou a prevalência de hipertensão e a caminhada frequente em florestas. 

Além disso, uma revisão sistemática de 2010 apontou que “no geral, os estudos sugerem que os ambientes naturais podem ter impactos diretos e positivos no bem-estar, mas apóiam a necessidade de investimento em pesquisas adicionais sobre essa questão para entender o significado geral para a saúde pública”. 

Tradição ampliada para outros países 

Apesar de antiga, só agora a prática do banho de floresta está se estendendo para a cultura ocidental. Um dos países que mais vem se interessando pela tradição japonesa é o Estados Unidos.

Na Califórnia, especialmente, é crescente o número de instituições e guias que estão se especializando na terapia florestal. Por lá, o banho de floresta é considerada a última tendência de bem-estar. 

De acordo com essa matéria do jornal The New York Times, mais de 300 pessoas na América do Norte já foram certificadas pela Associação de Terapias Naturais e Florestais, criada em 2012, nos Estados Unidos.

Com a certificação, psicoterapeutas, enfermeiros, instrutores de mindfulness e outros profissionais tornam-se aptos para atuarem como guias nos banhos de floresta. No vídeo abaixo, a Associação explica como funciona a terapia florestal:  

E aqui no Brasil?

No país, a técnica ainda não é amplamente conhecida, mas existem alguns esforços pontuais para incentivá-la por aqui. Um exemplo é o projeto “Banho no Parque”, promovido pela prefeitura da capital paulista desde março de 2018.

A atividade é realizada mensalmente no Parque Ibirapuera e aberta a públicos de todas as idades, especialmente pessoas com mais de 50 anos. A inspiração, é claro, foi o banho de floresta japonês e também a ecologia profunda. Saiba mais aqui. 

Além dessa iniciativa, provavelmente existem outras acontecendo pelo Brasil. Se você conhece alguma, não deixe de me contar nos comentários!

7 dicas para o seu banho de floresta (ou de parque, como quiser!)

Algumas recomendações podem ajudá-lo (a) a aproveitar ao máximo o seu banho de floresta. Confira algumas: 

1 – Escolha um local seguro e de fácil acesso. Parques arborizados e jardins botânicos, por exemplo, podem ser mais práticos para a sua rotina. 

2 – Antes de entrar no lugar, tente deixar os problemas e as preocupações do lado de fora. Esse tempo é para o seu relaxamento – lembre-se disso. 

3 – Use roupas e sapatos confortáveis. Se puder caminhar descalço, melhor ainda! 

4 – Desligue o celular para não se distrair e não use aparelhos eletrônicos. Fone de ouvido também não, viu? O banho de floresta propõe uma experiência meditativa e de silêncio.  

5 – Preste realmente atenção ao ambiente ao seu redor. Foque nos detalhes da natureza através dos cinco sentidos: visão, olfato, paladar, audição e tato. Sinta a textura das plantas, ouça o canto dos pássaros, toque nas flores, observe o céu….

6 – Vá com calma. Caminhe devagar e faça pausas ao longo do passeio, inclusive para fazer um lanche, caso sinta fome. Não tenha pressa durante o banho de floresta. 

7 – A proposta é que você se conecte com a natureza sem fazer esforço físico. Ou seja, nada de praticar corrida ou qualquer outra atividade física durante a prática. Tudo bem caminhar, mas não acelere o ritmo e faça pausas.   

Para aprofundar – banho de floresta contra o estresse e ansiedade

Sugiro dois conteúdos complementares para quem quiser se aprofundar no assunto. Um é esse vídeo aqui embaixo com o pesquisador Qing Li, umas das maiores referências no assunto lá no Japão. Conteúdo em inglês. 

Também recomendo esse artigo aqui publicado em abril deste ano pelo Marcelo Gleiser, colunista do jornal A Folha de São Paulo. 

No mais, espero que esse post te inspire a experimentar o banho de floresta no fim de semana. E não custa lembrar hein: use filtro solar! hahaha.. Tá calor por aí? Aqui em BH tá fervendo viu! Como a gente diz aqui em Minas: NUUUUUUUUUUU! 

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2 Comentários


  1. Em Botucatu, a Escola do Meio Ambiente propõe o Banho de Floresta em 4 etapas para reintegrar os participantes à natureza.

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    1. É mesmo, Eliana? Depois vou procurar saber sobre isso! De repente é uma informação legal para o post. Obrigada pelo comentário!

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