Saúde mental na universidade: disciplina Felicidade na grade curricular da UNB e UFSM

Na semana passada duas universidades públicas federais noticiaram que, a partir do segundo semestre, vão incluir a disciplina Felicidade na grade curricular. 

A primeira a criar uma disciplina acadêmica sobre o tema foi a Universidade de Brasília (UnB). Dias depois a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM),no Rio Grande do Sul, anunciou a novidade.

Como vai funcionar a disciplina Felicidade na UnB?

A proposta não é revelar nenhuma fórmula mágica ou receita pronta para o aluno ser feliz. Cada um tem sua própria visão sobre felicidade e, além do mais, esse conceito é sempre muito idealizado. 

A ideia, portanto, é favorecer o processo de autoconhecimento, para que o próprio estudante consiga se questionar: “Como eu posso ser mais feliz no atual momento da minha vida?” e “Como eu posso ser mais feliz dentro da universidade?”. 

A partir desse questionamento, os professores vão apresentar estratégias de enfrentamento das adversidades do dia-a-dia, seja na vida acadêmica ou pessoal do aluno. Neste link aqui está descrito o plano de estudo previsto na Universidade de Brasília.

Lá na UnB, por exemplo, a nota máxima não será prioridade na disciplina Felicidade. Os alunos serão avaliados pela participação ativa em sala de aula (60 pontos) e pela produção e apresentação do trabalho de fim de semestre (40 pontos).

Os estudantes terão que se organizar em grupos para criar um produto ou uma iniciativa que traga mais felicidade para a universidade. Pode ser um projeto social, um aplicativo de celular, um blog, uma música…

Para saber mais como a disciplina vai funcionar, leia esta matéria publicada no site da UnB. Também recomendo esta entrevista aqui com o professor Wander Pereira, à frente da matéria  na Universidade de Brasília. Esses dois links ajudam a entender como o tema Felicidade será trabalhado em sala de aula. Recomendo! 

E na UFSM, como vai funcionar? 

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a disciplina ganhou o nome de Ética e Felicidade. A matéria integra a grade curricular do curso de Ciências Sociais da UFSM, mas os demais alunos da universidade também podem se matricular. 

A proposta da UFSM também não é ensinar o aluno “como ser feliz”. O intuito é analisar, a partir da filosofia antiga, quais os entendimentos de filósofos gregos como Platão, Sócrates e Homero em relação à felicidade.

Além disso, a matéria – que não está ligada a nenhuma doutrina, religião ou ideologia – se propõe a desconstruir a visão equivocada que a sociedade pós-moderna tem sobre “o que é ser feliz”. A felicidade, muitas vezes, está nas pequenas coisas do cotidiano que passam despercebidas por nós, em meio à correria do dia a dia. 

Para saber mais sobre a disciplina Ética e Felicidade, clique aqui e acesse o site da UFSM. 

Repercussão da notícia 

Acessei os principais portais de notícias e páginas do Facebook que noticiaram a inclusão da disciplina Felicidade nas grades curriculares da UnB e UFSM. Encontrei comentários do tipo: 

  • “disciplina inútil
  • “hipocrisia do caralho”
  • “dinheiro jogado no lixo”
  • “onde já se viu universitário feliz?”
  • “aula de frescura”
  • “quem vai ensinar, um palhaço de circo?”
  • “essa geração Nutella é uma piada!”

Li muito outros comentários do tipo, inclusive com viés político. Por outro lado, também vi pessoas que, como eu, gostaram da ideia.  

Por que eu gostei?  

Porque para mim é um sinal de que as duas universidades resolveram olhar com mais cuidado e atenção para a promoção da saúde mental e a prevenção ao suicídio no ambiente acadêmico

Além disso, a criação da disciplina não é uma iniciativa isolada. Na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, foi criada a Comissão de Saúde Mental da UnB. Desde 2017, o grupo trabalha na elaboração de uma política institucional de saúde mental e qualidade de vida no campus. A matéria Felicidade surgiu como parte desse trabalho. 

Sabemos se a ideia vai funcionar? Não, ainda é cedo para saber. As aulas só começam em agosto. Sabemos se os alunos vão levar a disciplina à sério? Não, ainda mais sendo optativa. Sabemos se os professores estão preparados para ministrar a matéria? Também não. 

O que eu acho é que todo o corpo docente precisa estar envolvido nas estratégias voltadas para a saúde mental na universidade. Professores e coordenadores de cursos precisam de subsídios para acolher e oferecer suporte aos alunos que enfrentam algum tipo de sofrimento emocional.

Quando digo “acolher e oferecer suporte” não estou dizendo que eles devem auxiliar no diagnóstico ou tratamento de casos de depressão, síndrome do pânico etc. Não é função deles. 

Mas eles podem, por exemplo, não desqualificar o sofrimento de um aluno com problema psicológico. Em vez de acharem que é bobagem, frescura ou “corpo mole”, podem oferecer acolhimento e escuta interessada e estimular a busca por ajuda profissional. 

Essa estigmatização dos transtornos mentais precisa ser combatida nos cursos de Graduação e também na Pós-Graduação, no Mestrado e no Doutorado. Nesses três últimos, principalmente, a relação entre alunos e professores (especialmente com os orientadores) é muitas vezes abusiva.

Os estudantes lidam com humilhações, comentários depreciativos, exigências descabidas, ameaças etc.  Eu nunca passei por isso, mas já li vários relatos neste sentido. 

Precisamos falar sobre saúde mental na universidade  

Alguns dados recentes ajudam a explicar essa necessidade:

  • Um estudo de 2018 apontou que estudantes de mestrado e doutorado em todo o mundo relatam taxas de depressão e ansiedade seis vezes maiores do que as do público em geral;
  • Essa mesma pesquisa mostrou que 40% dos alunos de mestrado e doutourado apresentam índices de ansiedade na faixa de moderada a grave. Além disso, quase 40% têm sinais de depressão moderada a grave;
  •  Outro estudo, dessa vez de 2016, indicou que três em cada 10 estudantes de universidades federais brasileiras já buscaram atendimento psicológico pelo menos uma vez na vida;
  • A mesma pesquisa apontou que mais de 10% deles já usaram algum medicamento psiquiátrico;
  • Um boletim de 2017 revelou que o suicídio é a quarta maior causa de mortes no Brasil entre jovens de 15 a 29 anos. 

O que outras universidades públicas estão fazendo? 

Outras instituições públicas também vêm ampliando suas ações voltadas para a saúde mental na universidade. 

Um exemplo é a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que criou dois núcleos de saúde mental no fim de 2017 para prestar suporte psicológico a alunos de todos os cursos. O atendimento é gratuito e confidencial. 

Também no ano passado foi lançado o Programa “PsiU, isso te interessa!” na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Essa foi a primeira grande ação integrada com participação das diversas unidades e profissionais que atuam em atividades ligadas ao acolhimento e cuidados com a saúde na UFBA. 

Além dessas duas, a Universidade de São Paulo (USP) também ampliou suas ações preventivas. Neste ano, uma das medidas foi a criação de um escritório de saúde mental para prestar assistência psicológica a estudantes de todos os campis da USP. 

Além disso, a universidade lançou uma nova disciplina sobre prevenção do comportamento suicida na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (SP). A matéria é optativa e será ministrada a partir deste mês de agosto. 

Mobilização dos estudantes 

Em abril de 2017, um grupo de alunos da Universidade de São Paulo (USP) e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo criaram a Frente Universitária de Saúde Mental. Como parte dessa mobilização, os estudantes organizaram a 1ª Semana de Saúde Mental em junho do ano passado, em São Paulo.

A programação contou com palestras, rodas de conversas e oficinas práticas de circo, dança e meditação. Em 2018, o evento será realizado novamente, dessa vez no mês de agosto.

Outra iniciativa do grupo foi o lançamento da campanha “Não é Normal”, que teve ampla repercussão nas redes sociais no ano passado. A proposta era mostrar que não é normal, por exemplo, a faculdade se tornar um gatilho para a ansiedade. 

Para isso, universitários de todo país foram incentivados a compartilharem seus depoimentos usando a hashtag #NãoÉNormal. Um dos relatos que me chamaram a atenção foi esse aqui embaixo do Murilo Araújo, do canal Muro Pequeno. Assiste aí! 

Em 2018, a campanha #NãoéNormal foi desdobrada em outra: “Você não está em sozinho”, veiculada atualmente na página da Frente Universitária de Saúde Mental no Facebook. Outra ação muito legal! 

Hora de terminar o post e saber o seguinte: o que você pensa sobre saúde mental na universidade? 

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